Humanidades

Entre neurônios e sociedade, uma nova fronteira da ciência
Tese sustenta que cérebro, evolução e cultura atuam de forma integrada na socialização; autor defende revisão de paradigma que separa ciências humanas e biológicas desde o século XIX
Por Laercio Damasceno - 28/07/2026


Imagem: Reprodução


Durante mais de cem anos, a sociologia e a biologia caminharam por estradas paralelas. Enquanto uma buscava explicar o comportamento humano pelas instituições sociais, pela cultura e pela história, a outra concentrava esforços na compreensão da evolução da espécie, da genética e do funcionamento do cérebro. Uma tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Ceará (UFC) propõe reduzir essa distância e inaugurar um diálogo entre duas áreas tradicionalmente separadas pela academia.

Intitulada Socialização: fronteira entre a Sociologia e a Neurociência, a pesquisa do sociólogo Geraldo Pedro da Costa Filho, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFC, sob orientação do professor André Haguette e coorientação de Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes,  -  transformada em livro  -  sustenta que compreender plenamente o comportamento humano exige considerar, simultaneamente, os processos biológicos do cérebro e os mecanismos sociais responsáveis pela formação dos indivíduos.

Ao longo de 252 páginas, o pesquisador propõe uma aproximação entre áreas que, desde o nascimento da sociologia moderna, caminharam quase sempre separadas: a sociologia e a neurociência. Em vez de tratar natureza e cultura como dimensões independentes, Geraldo Filho argumenta que ambas fazem parte de um mesmo processo evolutivo, no qual cérebro, aprendizagem e instituições sociais interagem continuamente. A proposta desafia um paradigma consolidado desde o século XIX, quando Émile Durkheim estabeleceu que os fatos sociais deveriam ser explicados prioritariamente por outros fatos sociais.

A pesquisa parte de uma extensa revisão histórica que acompanha o debate desde Charles Darwin, passando por Émile Durkheim, Herbert Spencer, Edward O. Wilson, Richard Dawkins, Edgar Morin, Steven Pinker, Roberto Lent e Suzana Herculano-Houzel, autores que, em diferentes momentos, buscaram compreender como evolução biológica e comportamento humano se relacionam. Segundo o pesquisador, a resistência histórica das ciências sociais à biologia decorreu, em parte, da associação equivocada entre evolucionismo e "darwinismo social", interpretação utilizada para justificar desigualdades e políticas eugenistas durante o século XX.

Para Geraldo Filho, entretanto, os avanços da neurociência modificaram profundamente esse cenário. A chamada "década do cérebro", nos anos 1990, ampliou o conhecimento científico sobre a formação das conexões neurais, oferecendo novas explicações para fenômenos tradicionalmente atribuídos apenas ao ambiente social. A pesquisa sustenta que compreender a socialização exige reconhecer a interação permanente entre fatores biológicos e culturais.

Um dos conceitos centrais do trabalho é a chamada "exuberância sináptica", processo pelo qual o cérebro infantil produz um número elevado de conexões neurais que, posteriormente, são reorganizadas durante a adolescência. Segundo a tese, essa intensa remodelação cerebral coincide justamente com aquilo que a sociologia denomina socialização secundária — fase em que escola, grupos de amigos e outras instituições passam a exercer influência crescente sobre o indivíduo. A hipótese defendida é que esses dois processos ocorrem simultaneamente e se condicionam mutuamente.

No resumo da pesquisa, Geraldo Filho afirma que buscou responder quatro questões fundamentais: compreender a interface entre sociologia e neurociência; investigar a relação entre socialização e exuberância sináptica; identificar empiricamente esse processo entre adolescentes que concluíam o ensino fundamental; e avaliar como o conceito de socialização vem sendo ensinado após o retorno da Sociologia como disciplina obrigatória no ensino médio em 2008.

Para testar suas hipóteses, o pesquisador realizou investigação empírica envolvendo estudantes adolescentes em fase de conclusão do ensino fundamental e também professores participantes do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor), analisando como o conceito de socialização aparece na prática docente e nos livros didáticos utilizados nas escolas brasileiras. A preocupação central foi verificar se o ensino da disciplina acompanha o conhecimento científico produzido nas últimas décadas sobre o desenvolvimento cerebral.

Ao contextualizar historicamente sua pesquisa, Geraldo Filho observa que a aproximação entre biologia e ciências sociais não constitui uma novidade absoluta. Segundo ele, ainda no século XIX surgiram tentativas de construir uma sociologia baseada em fundamentos biológicos, posteriormente abandonadas diante da consolidação da tradição durkheimiana. Hoje, argumenta, a produção científica internacional volta a discutir essa convergência, impulsionada pelas descobertas da genética, da psicologia evolutiva e da neurociência cognitiva.

Entre os autores utilizados como base teórica, destaca-se o biólogo britânico Richard Dawkins, criador da teoria dos "memes" como replicadores culturais, empregada na tese para sustentar o conceito de seleção cultural adaptativa. Outro referencial importante é o filósofo francês Edgar Morin, cuja proposta de "junção epistemológica" defende a superação das barreiras entre disciplinas científicas. Segundo Costa Filho, ambos oferecem instrumentos para compreender a cultura como continuidade dos processos evolutivos da natureza, e não como realidade completamente separada dela.

Em uma das passagens mais representativas da introdução, o autor reconhece o caráter inovador da investigação ao afirmar que escolheu um objeto "incomum nas ciências sociais", justamente porque poucos pesquisadores brasileiros se dedicam a trabalhos verdadeiramente interdisciplinares envolvendo as ciências da natureza. Para ele, essa escassez reforça a necessidade de ampliar o diálogo entre áreas que estudam, sob perspectivas distintas, o mesmo fenômeno: o comportamento humano.

"A cultura pode ser compreendida como uma continuidade da própria natureza"

Geraldo Filho

O impacto potencial da pesquisa ultrapassa os limites da universidade. Ao defender que o cérebro adolescente passa por intensa reorganização justamente no período em que jovens consolidam valores, identidades e relações sociais, a tese sugere novas possibilidades para políticas educacionais, formação de professores e elaboração de currículos escolares. O cientista argumenta que compreender os mecanismos biológicos do desenvolvimento pode contribuir para reduzir conflitos familiares, melhorar estratégias pedagógicas e aproximar o ensino da realidade vivida pelos estudantes.

Mais do que propor uma revisão teórica, a pesquisa procura construir uma agenda científica de longo prazo. Em vez de substituir a sociologia pela neurociência, Geraldo Filho defende uma cooperação entre disciplinas. Na visão do autor, compreender plenamente o ser humano exige integrar explicações biológicas, psicológicas e sociais em um único modelo interpretativo. É uma proposta que recoloca em debate uma das questões mais antigas da ciência moderna: até onde termina a natureza e começa a cultura — ou se, afinal, essa fronteira realmente existe.

 

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